O motor V8 302 que equipa o Maverick tornou-se lendário por causa das suas conquistas nas pistas e seu desempenho nas ruas.
Há quem diga que só gosta de Maverick se for com o motor V8.
Fato é que os motores V8 carregam um legado, ronco e força que fazem qualquer apaixonado por carros parar para admirar.
O Maverick V8 302 foi o último carro V8 feito no Brasil. Foi também o único esportivo V8 feito pela Ford em nosso país.
Até hoje é incrível que um motor desse nível tenha sido vendido por aqui.
Vamos investigar como o Ford V8 302 surgiu e tentar esclarecer uma questão que sempre vem à mente do pessoal da velha guarda: É canadense?
Eu procurei muito por um boletim da Ford falando sobre o lançamento do motor 302 V8, contando tudo detalhadamente, mas não encontrei e talvez isso nem exista, mas reuni um material de época de dá uma direção segura para chegarmos ao um esclarecimento.
Origem
A nova família de motores da Ford, teve início em 1962 com 2 V8, um de 221 polegadas cúbicas e outro de 260.
Esse bloco foi "crescendo" de tamanho já em 1963, passando para 289 polegadas cúbicas, atingindo as 302 polegadas em 1967.
Arredondando, temos 5 litros no V8 302. Esse passou a ser o limite da cilindrada (5000) permitida para as principais categorias de corrida pelo mundo naquele período.
Assim ele chegou na linha Ford e Mercury de 1968.
Uma coisa interessante é que a Ford chamava esses motores de CHALLENGER. Vemos esse nome atribuído ao 289 e 302, assim como em outros catálogos ao 221 e 260.
Nem todos os 302 eram iguais, podia mudar carburação, taxa de compressão... coisas do tipo que não precisamos detalhar agora.
Tudo isso foi no final de 1967, na introdução do modelo 1968.
Podemos ver que o V8 302 veio para ficar e ser o futuro da linha small block da Ford, atendendo a exigência de uma cilindrada mais perto do teto das regras das corridas.
O 302 V8 evoluiu de diversas formas, como o Boss 302, o Tunnel Port...
Família Small Block
Bom, a Ford tinha o 289 e 302, mas ainda tinha espaço pra mais um na família: o V8 351.
Nós precisamos saber disso porque é o princípio da explicação da origem e o apelido que esses motores receberam.
A Ford tinha algumas fábricas de motores. Há relatos que a família small block foi produzida em apenas 2 fábricas: A da cidade de Cleveland nos EUA e a da cidade de Windsor, no Canadá.
Calma, não se antecipe, vamos por partes.
Todo esse tempo que pesquiso, nunca vi discussão nos Estados Unidos sobre a nacionalidade das peças ou carros. Existia/existe acordo comercial entre Canadá e Estados Unidos que tornava natural produtos americanos serem produzidos no Canadá.
Aqui no Brasil as pessoas são mais preocupadas e/ou dão mais importância para a origem, como se fosse mais relevante o lugar de produção, do que o produto em si.
Ok.
De início, o V8 351 foi produzido somente em Windsor (Canadá). Até então eles eram chamados unicamente pela sua medida em polegadas cúbicas.
Acontece que a fábrica de Cleveland também fez um motor de 351 polegadas, mas partindo do bloco de outra família, ou seja, tinham o mesmo tamanho, mas a construção era diferente. Além disso, os cabeçotes desse motor eram totalmente diferentes do 351 feito em Windsor.
Portanto, como diferenciar facilmente dois motores que tem o mesmo tamanho se o comum era chamá-los pela sua medida em polegadas cúbicas?
Foi a partir desse caso, em 1969, que os nomes das fábricas passaram a completar o nome dos motores.
Então o 351 era chamado de Windsor e o 351 "diferente" era chamado de Cleveland. Apenas o 351 precisava de desambiguação.
A questão é que o nome da fábrica se estendeu ao 289 e ao 302 também.
Esse tipo de nomenclatura também aconteceu com o motor 4 cilindros OHC utilizado no Ford Pinto, que passou a se chamar de LIMA, pois era feito na cidade de Lima.
Esse é um motivo para dar o nome/apelido para os motores - O lugar onde foram feitos.
Mas como vimos, o 351 tinha dois tipos. Então, outra forma de apelidar, é pela construção do motor.
Então quando se diz que o motor é Cleveland, a primeira coisa que vem na cabeça, nesse caso, é que ele tem um bloco e cabeçote totalmente diferentes.
Entendeu?
Ou seja, antes de dois blocos de mesmo tamanho, (351) a fábrica de origem não era relevante. Os 289 e 302 tinham produção em Cleveland e Windsor, mas só incorporaram o apelido após a chegada do 351.
Todo bloco do motor deve ter a marcação WF para os feitos
em Windsor (Canadá) e CF para os feitos em Cleveland (Estados Unidos da
América). Essa marcação é que vai determinar o local de nascimento e a
“nacionalidade” do motor.
Outra forma de identificar é por meio da etiqueta que os motores carregam:
Tá vendo aí que legal?
Assim como o carro em si, o motor também tem a sua "plaqueta" de identificação.
É, eu sei que essa etiqueta já sumiu da maioria dos motores e quem cola ela por vontade própria, muitas vezes nem sabe o que significa, mas esse é o método da fábrica para identificar.
Independentemente de qual das 2 fábricas o 302 foi feito, ele é sempre igual. Tecnicamente falando, não faz diferença nenhuma o país de origem.
Eu falei a mesma coisa várias vezes de formas diferentes. Espero que tenha ficado claro.
Um extra é a produção do 302 V8 no México. É dito que a liga de ferro utilizada lá é melhor. Temos que entender que ser melhor, não significa que o outro é ruim.
A produção do México atendia às leis do país sobre indicies de nacionalização e foi mais ou menos por isso que em 1974 o Mustang no México só poderia ser V8, o único lugar no mundo onde não era 4 cilindros. Interessante né?
O 302 V8 no Brasil
A Ford decidiu em meados de 1972 que usaria o V8 302 no Maverick. Vimos que essa não era a primeira escolha, mas ainda bem que as coisas foram ocorrendo para terminar dessa forma.
No Salão do Automóvel de 1972, o Maverick tinha a inscrição "5 litros" ou invés do que depois tornou-se padrão "302-V8"
Para entender melhor esses termos, é interessante ler nossa pesquisa sobre esse tipo de dados técnicos.
Aí está o 302 no Maverick brasileiro.
Nessa imagem ele usa uma tampa de válvulas diferente. Podemos ver a etiqueta também.
No Brasil, a taxa de compressão do 302 V8 era de 7,5:1. Muito menor do que a utilizada nos EUA. Talvez por causa da octanagem do combustível. Nessa condição, ele gerava 197 cavalos. Para o modelo de 1977, a taxa de compressão subiu para 7,8:1, elevando também a potência para 199 cavalos.
Equipado com esse motor, só faltou o Maverick fazer chover. Veja mais detalhes aqui.
E mesmo hoje, mais de 50 anos depois, é um conjunto que chama muita atenção e atende todas as necessidades do dia a dia.
A Ford tinha fundição no Brasil, mas o V8 302 nunca foi fabricado por aqui. Todos eles eram importados.
Há pessoas graúdas do ramo automotivo que dizem que ele vinha do porto do Canadá, assim como há quem diga que ele vinha dos EUA e até o México.
Isso adiciona mais um motivo para apelidar o motor. Vamos relembrar:
Dar o nome pela fábrica onde foi feito;
Dar o nome de acordo com o seu tipo de construção e
Dar o nome de acordo com a cidade de qual foi enviado para a o Brasil.
Do ponto histórico, é importante ter informações detalhadas da produção de tudo o que envolve o Maverick, assim como conseguimos encontrar nessa pesquisa aqui.
A questão é que ainda existem coisas que não sabemos com exatidão e, portanto, não leva a nada especular e querer adivinhar o que é ou como foi. Só o que importa são fatos concretos.
Eu percebo que algumas pessoas fazem questão de chamar o 302 V8 de Canadense e eu acho isso desnecessário, primeiro porque não há certeza de sua origem e segundo que não mudaria nada no carro se ele fosse americano ou mexicano.... tinha fundição desse motor até na Austrália.
Veja, o motor 4 cilindros feito em Taubaté foi exportado para os EUA. Você acha que lá eles chamam esse motor de 4 cilindros brasileiro, ou 4 cilindros Taubaté?
"Windsor", "Cleveland" e "Canadense" são apelidos e todo mundo é livre pra dar o apelido que quiser, mas quando o assunto é origem de fabricação, aí as coisas são diferentes. Veja a questão do Ford Escort 1996, por exemplo. Ele tem design europeu, foi vendido no Brasil, mas produzido na Argentina. Seu apelido é "europeu". Fica claro que apelido não precisa fazer 100% de sentido.
Ainda procuro uma tabela de produção dos motores nessas duas fábricas, separado por ano e modelos, mas até então, temos que entender que a conclusão que chegamos hoje, é de acordo com o material que está disponível.
O 302 V8 é bom?
É, há quem duvide, mesmo com a vida real mostrando evidências enormes.
Um teste espetacular que a Ford promoveu, deixou claro como o V8 289, nesse casso, era muito durável.
Em 1963, 4 Mercury Comet equipados com o V8 289 Hi-Po (recém lançado) rodaram por 40 dias na pista de Daytona, atingindo a marca de 100 mil milhas cada. Apenas 1 deles teve um pequeno problema, mas após o reparo, voltou para a pista. Você pode ver mais detalhes aqui. Esse teste foi mais de 3 vezes mais duradouro do que o feito em Interlagos com o Gordini 1 ano depois.
Legal né? O V8 302 é a evolução do 289.
Em 1968, o 302 V8 também equipou o Shelby Cobra GT 350.
Nessa versão, ele tinha 250 cavalos.
O 302 V8 mais potente a equipar o Maverick, foi em 1974 no Brasil, com o Kit Quadrijet, atingia 257 cavalos.
Para o um Shelby, 250 cavalos era pouco, mas para o Maverick, 257 era o ápice! Além disso, o Maverick tinha por volta de 100 Kg a menos, então, é muito plausível que o Maverick Quadrijet deixe essa versão do Shelby Cobra GT 350 para trás.
Não duvide do 0 a 100 em 6,5 segundos. O GT 350 fazia em 6,9!
Eu digo isso para chamar atenção para o que realmente foi esse motor e como no Brasil nós pudemos presenciar coisas incríveis como essa.
Fica também uma dúvida: Será que o Luiz Antônio Greco usou os catálogos da Shelby para montar o nosso Maverick Quadrijet?
Ainda teve o experimento do Maverick Boss 302.
Ah, não precisa dizer que o Ford GT40 que venceu Le Mans em 68 e 69 usava um 302 né?
O Ford V8 302 foi feito para durar e equipar todo tipo de veículo. Ele venceu a pior fase da indústria automotiva mundial (anos 70), foi se atualizando e só saiu de linha em 2001, provando assim sua excelente construção, durabilidade e desempenho.
Então vamos lá:
Dar o nome pela fábrica onde foi feito;
Só olhando a etiqueta do motor ou as marcações da fundição para saber onde foi produzido.
Dar o nome de acordo com o seu tipo de construção e
De acordo com isso, o nosso 302 é Windsor, por seguir a família small block iniciada com o V8 221.
Dar o nome de acordo com a cidade de qual foi enviado para a o Brasil.
Detroit, Cleveland e Windsor ficam muito próximas e rodeadas por portos. Eu não sei dizer de qual porto eram feitas as exportações.
E você, sabia de todas essas coisas?
Nem toda pergunta é respondida satisfatoriamente apenas com SIM ou NÃO.
Aproveita que você está aqui e dá uma olhada nas outras pesquisas
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