quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Projeto Georgia e o Ford Maverick

Muito bem, a Ford precisava de um carro médio para o Brasil, fez clínicas, testou protótipos, apresentou no salão do automóvel e lançou o Maverick. Ok, mas COMO isso aconteceu?

As pessoas costumam dizer que o Maverick deveria ser assim ou deveria ser assado, mas dificilmente se concentram no que realmente foi e os motivos por trás disso. Existia todo um planejamento sério em cada movimento que a Ford faria. Nada é aleatório.
Essa parte da história não teve o destaque merecido para esclarecer esses assuntos e iluminar a mente das pessoas, mas chegou a hora!

Georgia é o nome do motor 4 cilindros 2.3 ohc!

Não meu amigo, ele ficou conhecido assim, mas o Projeto Georgia é muito maior que isso.
Falamos um pouco sobre o Projeto Georgia na pesquisa sobre 1972, mas ele é o ponto chave para entender o que a Ford pretendia e como e onde o Maverick se encaixava nisso tudo.
Como a Ford é principalmente uma fabricante de veículos, tende-se a imaginar que, nesse caso em específico, o Maverick era o único propósito da empresa no Brasil.

Essa pesquisa traz alguns tópicos importantes, mas vamos começar com:





O que é o Projeto Georgia?


Notícias Ford 3.3.72

Quatro Rodas 4.72



O Globo 28.7.72


O Cruzeiro 29.3.72




Como vemos, o projeto que realmente saiu do papel foi o Georgia II, que é o plano da Ford do Brasil de expandir suas instalações e operações. Isso envolve:

  • A produção do Maverick;
  • A construção de uma fábrica de motores;
  • Ampliação de instalações existentes;
  • Construção de uma pista de testes e
  • Entrar no mercado de exportações, como que uma atividade à parte da fabricação de veículos.


O projeto Georgia II vinha para arrematar os outros grandes investimentos da Ford no Brasil, que em 1967 havia comprado a Willys Overland do Brasil, no mesmo ano lançado seu primeiro automóvel nacional e na sequência em 1968, o segundo, assumindo uma estrutura sólida e maior do que tinha para poder avançar em todos os objetivos. Podemos dizer que a Ford estava "terminando" de realmente se instalar por aqui.

Portanto, veja que todos esses objetivos andavam juntos pois possuem grande interdependência. 
A Ford decidiu abraçar um projeto enorme, assim como também confiar no Brasil para entregar o retorno esperado. 



Como o Projeto Georgia saiu do papel? 



O Estado de S. Paulo 2.3.72

Lee Iacocca, o presidente da Ford veio ao Brasil cuidar pessoalmente da negociação. Não dependia apenas da vontade da Ford, era necessário uma aprovação do governo brasileiro.


Jornal do Brasil 3.3.72


Após audiência com o ministro Delfim Neto, Lee Iacocca esteve com o presidente do Brasil, o General Médici, de quem recebeu a aprovação para o Projeto Georgia.



Quatro Rodas 4.72

Veja 8.3.72


Notícias Ford 3.3.72

Uma edição extra da publicação interna da Ford trouxe a notícia mais esperada do ano!


Excelente! 
Após a escolha do Maverick ter sido validada pela Ford em outubro de 1971, chegamos à março de 1972 com a aprovação do governo brasileiro.


O Projeto Georgia e os motores


A Ford não ia apenas fabricar motores, ela iria exportá-los, assim como também vários outros produtos. Um plano de exportação também se faz necessário.

Essa jogada foi excelente. A Ford ia produzir aqui no Brasil, itens que a própria Ford utilizaria em outros países. Ou seja, a fábrica no Brasil teria sua produção totalmente vendida, podendo assim, com uma operação segura, se tornar uma importante fonte de renda para a filial brasileira. 
Essa questão da exportação era importante para o plano de governo do país e a Ford soube muito bem aproveitar essa oportunidade.

Em contraste com isso....

Havia ainda uma questão quanto a motorização que seria utilizada no Maverick. Falamos com detalhes sobre isso nessa pesquisa aqui. (leia para não se perder no raciocínio).

É nesse momento que acontece um conflito entre os interesses dos trabalhos dentro do Projeto Georgia.
Como o próprio Joseph O'Neill disse aqui, o Maverick era necessário para completar a linha Ford, mas  o ciclo de exportações dos motores 4 cilindros também era importante. Se não fosse o compromisso de exportar toda a produção do primeiro ano, 1 ano antes o Maverick já poderia ter o 2.3 OHC no seu cofre.
De qualquer forma, essa situação poderia facilmente ser prevista, me fazendo a acreditar que os dois motores que a Ford queria para o Maverick Brasileiro (em seu lançamento) só poderiam mesmo ser o 6 cilindros herdado da Willys e outro de maior potência, importado. Somente a partir de outubro de 1972 começou a ser falado de um motor V8 para o Maverick. 

Mas assim como o conflito atrapalha, também foi uma solução muito importante. Por meio das exportações dos 4 cilindros e outras peças, o V8 302 pode chegar ao Brasil com valor acessível. 
Como assim? Nós já vamos ver, mas antes que digam: Ah, mas a Ford era mão de vaca, não queria gastar...

Veja o que o Lee Iacocca esccreveu sobre o Mustang:

Iacocca: Uma autobiografia por Lee Iacocca e William Novak


Assista também:



Pronto, olha aí! Será que o Mustang é uma tragédia também? A Ford economizou um monte nele, usou a suspensão e motores de outros carros mais velhos! Que pecado... Como pode? Misericórdia, nunca mais eu chego perto de um Mustang..... 
É assim que tem que pensar? Mas sobre o Maverick pode né?


Nenhuma empresa vai gastar demasiadamente em um produto voltado para as grandes massas. O investimento será sempre racional e buscando a maior economia possível para que o valor final do produto seja acessível. 
E outra, o resultado não é um reflexo exato do valor investido. Não é porque colocou um monte de dinheiro que será bom, assim como não colocando esse dinheiro todo, será ruim. O que determina a qualidade final é a forma de usar esse valor dentro da proposta do projeto.

No final, a Ford tinha o motor 6 cilindros para os modelos de entrada e o 302 V8 para o topo de linha, GT (além de está disponível para todos os modelos). Leia aqui 27 vezes ou até entender isso de vez.

A Ford e o Befiex


Befiex: Comissão para Concessão de Benefícios Fiscais a Programas Especiais de Exportação.
Esse programa do governo visava atender empresas com projetos de longo prazo de exportação de produtos. 

O primeiro programa instituído, foi o da Ford do Brasil.


Jornal do Brasil 19.10.72

Jornal do Commercio 5.4.73




Jornal do Brasil 27.7.73 

NÃO FOI SÓ A FORD QUE TEVE ESSE TIPO DE INCENTIVO DO GOVERNO BRASILEIRO.


Esse assunto é grande e eu não estou aqui pra pesquisar a história do Befiex. 
Essas tratativas passavam por vários processos e etapas.



Befiex: Efeitos Internos de um Incentivo a Exportação 1989


Basicamente, quem exportasse dentro do prazo e nos valores determinados, poderia importar com valores mais baixos. Para efeito prático, a cada 3 dólares exportados, poderia ser importado o equivalente a 1 dólar.

Assim, no contexto que estamos vendo, o motor 302 V8 chegaria ao Brasil com valor menor.

Veja, o Befiex não é uma permissão para importação, é apenas um incentivo. Lembrando também que era proibida a importação de veículos montados desde 1953.


A princípio, provavelmente, era para termos o motor 4 cilindros feito aqui e um 6 cilindros importado. No final das contas, a Ford teria no Brasil a sua fábrica de motores, o Maverick e, superando as expectativas, (pois não havia sido falado até então da possibilidade de um motor V8), os consumidores teriam o que veio a se tornar uma lenda, o Maverick 302 V8.
Talvez aqui, a Ford já estivesse pensando também no Galaxie, que utilizava outra família de motores V8.


Correio Braziliense 26.11.72

Este "informe" da Ford nos dá a visão geral das atividades da empresa. Podemos ver que tudo caminhava junto em busca de um objetivo só, que era deixar a Ford realmente um passo à frente.

O Projeto Georgia e o Befiex


Na prática, o que se viu foi uma atuação forte e determinada da Ford em concluir todo seu projeto, mesmo com a condição financeira estando completamente abalada pela crise do petróleo.

Diário de Notícias 2.2.74

 
O Henry Ford II acreditou no governo, manteve sua palavra e foi investindo....

Hoje a gente sabe que o governo não conseguiu resolver nada, mas vamos manter o contexto da época.


Jornal do Brasil 18.4.74


Está aí a posição favorável e consciente do governo diante do Biefex. Antes que alguém diga que isso só beneficiava a empresa e blá, blá, blá...



Jornal do Brasil 13.12.74 

A Ford matriz tinha investimentos para suas filiais na Argentina, México e Venezuela também. Por aqui, a novidade era a construção de uma fábrica de tratores.



Jornal do Brasil 24.1.75


Colhiam-se os frutos de todo o investimento feito. O ano de 1974 foi muito proveitoso para a Ford no Brasil.


Auto Esporte 3.1975

Olha como a Ford cresceu. Ela aumentou suas instalações, sem para sua produção. A gente costuma dizer que trocou o pneu com o carro andando.
Imagina o controle, a atenção, planejamento, o material humano e o investimento necessário pra fazer tudo isso rodar corretamente!

Nós acompanhamos ano a ano o desempenho da Ford na década de 70.



Cidade de Santos 7.9.75

Veja só a capacidade dessa fábrica! 2 motores a cada minuto! A Ford acertou no projeto e demonstrou ter toda a capacidade necessária para executá-lo.


Jornal do Brasil 19.2.76


Não tem como não admirar o nosso presidente Joseph O'Neill. Ele tocou toda essa movimentação desde o início e agora estava satisfeito com os resultados.
O jornal faz um breve resumo do programa Befiex.





Inauguração da Fábrica de tratores


Notícias Ford 2.1978 


Que orgulho! 
A Ford tinha visão de negócio e o poder para execução. O resultado superou o esperado.


Na nossa última pesquisa, A situação financeira da Ford na década de 70, vimos que a meta de exportar 1 bilhão de dólares até 1982, foi atingida em 1979, mostrando uma eficiência absurda!
Já vimos também aqui no blog que até mesmo o Maverick completo foi exportado (assim como outros veículos Ford).


Portanto, podemos concluir que o Projeto Georgia foi muito acertado e bem executado.

O resultado do Maverick, que vendeu muito bem no primeiro ano (1973), aumentou e manteve as vendas em 1974 e 1975, mas a partir de 1976 viu os números caírem, não reflete a operacionalização do Projeto Georgia, visto que a venda dos automóveis no Brasil a partir de 1974 refletia o interesse praticamente único, em economia. Economia essa que nem o brasileiro sabia que existia, pois não havia preocupação com ela, visto que o preço do combustível nunca tinha variado tanto como durante a crise do petróleo.
Em 1970 o litro da gasolina custa 0,44 e em 1979 custava 9,60.

Assista como isso se dava na prática nas revendas:


O vendedor mostrou todos os itens de luxo que o carro possuía e toda sua qualidade, mas a única coisa que o comprador queria saber era quanto ele fazia por litro.
Depois o vendedor conta que uma mulher foi comprar um carro pensando apenas em economia. Ela escolheu um onde ela nem entrava direito. Ela não cabia, mas estava feliz porque somente a economia importava.
  


A Ford fez toda a lição de casa com o Maverick. Fez pesquisas de mercado, adaptou o carro ao Brasil e na hora do vamos ver, acontece um evento totalmente externo que prejudicou não só o Maverick, mas a indústria automobilística mundial. Foi isso que acabou com a era dos Muscle car também, ou seja, foi o fim de uma geração completa, independentemente de carro ou marca.


É como olhar a previsão do tempo de manhã e constatar que fará sol. Você deixa o guarda chuva em casa e vai trabalhar. Então no meio do dia, o céu escurece e desaba em forte tempestade. Como você pode ser o culpado por estar desprotegido?



Manchete 23.12.1978


É por isso que até os últimos dias, a Ford destacava as qualidades de construção do Maverick, deixando claro que, não comprá-lo, não tinha a ver com qualidade. O Maverick ainda hoje é um carro muito bom. as pessoas tinham outros interesses na época...

Nós que passamos pela greve dos caminhoneiros em 2018, onde o preço da gasolina passou dos 10 reais, e que também passamos pela pandemia de 2020, onde nem trabalhar direito foi possível, lembramos facilmente que nenhum carro nos interessava, aliás, a última coisa que nos vinha à cabeça, era usar um carro.
Se tudo for analisado dentro do seu contexto, a análise fica correta.


Concluindo o assunto, vimos que o que trouxe o Maverick ao Brasil, era maior que o próprio carro. A Ford não podia parar tudo para focar apenas no carro, assim como também não poderia abandoná-lo (como não abandonou) para cuidar dos outros interesses. O dinheiro da Ford vinha de várias fontes, não apenas dos carros. Quando o interesse do mercado consumidor mudou, essas outras fontes de renda ajudaram a Ford se manter mesmo com queda geral nas vendas de automóveis no país.
Pra ter uma ideia, a Ford tinha 3 linhas completas de veículos para cuidar, enquanto outra montadora só tinha uma linha e meia...

Já conhecíamos a história do Maverick e agora demos destaque para o que acontecia ao seu redor. Com esse contexto aumentado, deve-se parar de vez com comentários do tipo "deveria ter feito isso", "era melhor ter feito aquilo"... O estudo da história resume-se em analisar FATOS OCORRIDOS e não no que nós ACHAMOS QUE PODERIA  ACONTECER.
É bem frustrante ouvir opinião de quem não conhece o assunto que está falando, distorcendo-o de todas as formas possíveis.

Não seja a pessoa que só "LÊ AS FIGURA", uma imagem não vale mais do que mil palavras. Conheça o contexto.



Obrigado.





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