Muito bem, a Ford precisava de um carro médio para o Brasil, fez clínicas, testou protótipos, apresentou no salão do automóvel e lançou o Maverick. Ok, mas COMO isso aconteceu?
As pessoas costumam dizer que o Maverick deveria ser assim ou deveria ser assado, mas dificilmente se concentram no que realmente foi e os motivos por trás disso. Existia todo um planejamento sério em cada movimento que a Ford faria. Nada é aleatório.
Essa parte da história não teve o destaque merecido para esclarecer esses assuntos e iluminar a mente das pessoas, mas chegou a hora!
Georgia é o nome do motor 4 cilindros 2.3 ohc!
Não meu amigo, ele ficou conhecido assim, mas o Projeto Georgia é muito maior que isso.
Falamos um pouco sobre o Projeto Georgia na pesquisa sobre 1972, mas ele é o ponto chave para entender o que a Ford pretendia e como e onde o Maverick se encaixava nisso tudo.
Como a Ford é principalmente uma fabricante de veículos, tende-se a imaginar que, nesse caso em específico, o Maverick era o único propósito da empresa no Brasil.
Essa pesquisa traz alguns tópicos importantes, mas vamos começar com:
O que é o Projeto Georgia?
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| Notícias Ford 3.3.72 |
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| Quatro Rodas 4.72 |
| O Globo 28.7.72 |
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| O Cruzeiro 29.3.72 |
Como vemos, o projeto que realmente saiu do papel foi o Georgia II, que é o plano da Ford do Brasil de expandir suas instalações e operações. Isso envolve:
- A produção do Maverick;
- A construção de uma fábrica de motores;
- Ampliação de instalações existentes;
- Construção de uma pista de testes e
- Entrar no mercado de exportações, como que uma atividade à parte da fabricação de veículos.
O projeto Georgia II vinha para arrematar os outros grandes investimentos da Ford no Brasil, que em 1967 havia comprado a Willys Overland do Brasil, no mesmo ano lançado seu primeiro automóvel nacional e na sequência em 1968, o segundo, assumindo uma estrutura sólida e maior do que tinha para poder avançar em todos os objetivos. Podemos dizer que a Ford estava "terminando" de realmente se instalar por aqui.
Portanto, veja que todos esses objetivos andavam juntos pois possuem grande interdependência.
A Ford decidiu abraçar um projeto enorme, assim como também confiar no Brasil para entregar o retorno esperado.
Como o Projeto Georgia saiu do papel?
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| O Estado de S. Paulo 2.3.72 |
Lee Iacocca, o presidente da Ford veio ao Brasil cuidar pessoalmente da negociação. Não dependia apenas da vontade da Ford, era necessário uma aprovação do governo brasileiro.
| Jornal do Brasil 3.3.72 |
Após audiência com o ministro Delfim Neto, Lee Iacocca esteve com o presidente do Brasil, o General Médici, de quem recebeu a aprovação para o Projeto Georgia.
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| Quatro Rodas 4.72 |
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| Veja 8.3.72 |
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| Notícias Ford 3.3.72 |
Uma edição extra da publicação interna da Ford trouxe a notícia mais esperada do ano!
Excelente!
Após a escolha do Maverick ter sido validada pela Ford em outubro de 1971, chegamos à março de 1972 com a aprovação do governo brasileiro.
O Projeto Georgia e os motores
A Ford não ia apenas fabricar motores, ela iria exportá-los, assim como também vários outros produtos. Um plano de exportação também se faz necessário.
Essa jogada foi excelente. A Ford ia produzir aqui no Brasil, itens que a própria Ford utilizaria em outros países. Ou seja, a fábrica no Brasil teria sua produção totalmente vendida, podendo assim, com uma operação segura, se tornar uma importante fonte de renda para a filial brasileira.
Essa questão da exportação era importante para o plano de governo do país e a Ford soube muito bem aproveitar essa oportunidade.
Em contraste com isso....
Havia ainda uma questão quanto a motorização que seria utilizada no Maverick. Falamos com detalhes sobre isso nessa pesquisa aqui. (leia para não se perder no raciocínio).
É nesse momento que acontece um conflito entre os interesses dos trabalhos dentro do Projeto Georgia.
Como o próprio Joseph O'Neill disse aqui, o Maverick era necessário para completar a linha Ford, mas o ciclo de exportações dos motores 4 cilindros também era importante. Se não fosse o compromisso de exportar toda a produção do primeiro ano, 1 ano antes o Maverick já poderia ter o 2.3 OHC no seu cofre.
De qualquer forma, essa situação poderia facilmente ser prevista, me fazendo a acreditar que os dois motores que a Ford queria para o Maverick Brasileiro (em seu lançamento) só poderiam mesmo ser o 6 cilindros herdado da Willys e outro de maior potência, importado. Somente a partir de outubro de 1972 começou a ser falado de um motor V8 para o Maverick.
Mas assim como o conflito atrapalha, também foi uma solução muito importante. Por meio das exportações dos 4 cilindros e outras peças, o V8 302 pode chegar ao Brasil com valor acessível.
Como assim? Nós já vamos ver, mas antes que digam: Ah, mas a Ford era mão de vaca, não queria gastar...
Veja o que o Lee Iacocca esccreveu sobre o Mustang:
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| Iacocca: Uma autobiografia por Lee Iacocca e William Novak |
Assista também:
Pronto, olha aí! Será que o Mustang é uma tragédia também? A Ford economizou um monte nele, usou a suspensão e motores de outros carros mais velhos! Que pecado... Como pode? Misericórdia, nunca mais eu chego perto de um Mustang.....
É assim que tem que pensar? Mas sobre o Maverick pode né?
Nenhuma empresa vai gastar demasiadamente em um produto voltado para as grandes massas. O investimento será sempre racional e buscando a maior economia possível para que o valor final do produto seja acessível.
E outra, o resultado não é um reflexo exato do valor investido. Não é porque colocou um monte de dinheiro que será bom, assim como não colocando esse dinheiro todo, será ruim. O que determina a qualidade final é a forma de usar esse valor dentro da proposta do projeto.
No final, a Ford tinha o motor 6 cilindros para os modelos de entrada e o 302 V8 para o topo de linha, GT (além de está disponível para todos os modelos). Leia aqui 27 vezes ou até entender isso de vez.
A Ford e o Befiex
Befiex: Comissão para Concessão de Benefícios Fiscais a Programas Especiais de Exportação.
Esse programa do governo visava atender empresas com projetos de longo prazo de exportação de produtos.
O primeiro programa instituído, foi o da Ford do Brasil.
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| Jornal do Brasil 19.10.72 |
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| Jornal do Commercio 5.4.73 |
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| Jornal do Brasil 27.7.73 |
NÃO FOI SÓ A FORD QUE TEVE ESSE TIPO DE INCENTIVO DO GOVERNO BRASILEIRO.
Esse assunto é grande e eu não estou aqui pra pesquisar a história do Befiex.
Essas tratativas passavam por vários processos e etapas.
| Befiex: Efeitos Internos de um Incentivo a Exportação 1989 |
Basicamente, quem exportasse dentro do prazo e nos valores determinados, poderia importar com valores mais baixos. Para efeito prático, a cada 3 dólares exportados, poderia ser importado o equivalente a 1 dólar.
Assim, no contexto que estamos vendo, o motor 302 V8 chegaria ao Brasil com valor menor.
Veja, o Befiex não é uma permissão para importação, é apenas um incentivo. Lembrando também que era proibida a importação de veículos montados desde 1953.
A princípio, provavelmente, era para termos o motor 4 cilindros feito aqui e um 6 cilindros importado. No final das contas, a Ford teria no Brasil a sua fábrica de motores, o Maverick e, superando as expectativas, (pois não havia sido falado até então da possibilidade de um motor V8), os consumidores teriam o que veio a se tornar uma lenda, o Maverick 302 V8.
Talvez aqui, a Ford já estivesse pensando também no Galaxie, que utilizava outra família de motores V8.
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| Correio Braziliense 26.11.72 |
Este "informe" da Ford nos dá a visão geral das atividades da empresa. Podemos ver que tudo caminhava junto em busca de um objetivo só, que era deixar a Ford realmente um passo à frente.
O Projeto Georgia e o Befiex
Na prática, o que se viu foi uma atuação forte e determinada da Ford em concluir todo seu projeto, mesmo com a condição financeira estando completamente abalada pela crise do petróleo.
O Henry Ford II acreditou no governo, manteve sua palavra e foi investindo....
Hoje a gente sabe que o governo não conseguiu resolver nada, mas vamos manter o contexto da época.
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| Jornal do Brasil 18.4.74 |
Está aí a posição favorável e consciente do governo diante do Biefex. Antes que alguém diga que isso só beneficiava a empresa e blá, blá, blá...
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| Jornal do Brasil 13.12.74 |
A Ford matriz tinha investimentos para suas filiais na Argentina, México e Venezuela também. Por aqui, a novidade era a construção de uma fábrica de tratores.
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| Jornal do Brasil 24.1.75 |
Colhiam-se os frutos de todo o investimento feito. O ano de 1974 foi muito proveitoso para a Ford no Brasil.
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| Auto Esporte 3.1975 |
Olha como a Ford cresceu. Ela aumentou suas instalações, sem para sua produção. A gente costuma dizer que trocou o pneu com o carro andando.
Imagina o controle, a atenção, planejamento, o material humano e o investimento necessário pra fazer tudo isso rodar corretamente!
Nós acompanhamos ano a ano o desempenho da Ford na década de 70.
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| Cidade de Santos 7.9.75 |
Veja só a capacidade dessa fábrica! 2 motores a cada minuto! A Ford acertou no projeto e demonstrou ter toda a capacidade necessária para executá-lo.
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| Jornal do Brasil 19.2.76 |
Não tem como não admirar o nosso presidente Joseph O'Neill. Ele tocou toda essa movimentação desde o início e agora estava satisfeito com os resultados.
O jornal faz um breve resumo do programa Befiex.
Inauguração da Fábrica de tratores
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| Notícias Ford 2.1978 |
Que orgulho!
A Ford tinha visão de negócio e o poder para execução. O resultado superou o esperado.
Na nossa última pesquisa, A situação financeira da Ford na década de 70, vimos que a meta de exportar 1 bilhão de dólares até 1982, foi atingida em 1979, mostrando uma eficiência absurda!
Já vimos também aqui no blog que até mesmo o Maverick completo foi exportado (assim como outros veículos Ford).
Portanto, podemos concluir que o Projeto Georgia foi muito acertado e bem executado.
O resultado do Maverick, que vendeu muito bem no primeiro ano (1973), aumentou e manteve as vendas em 1974 e 1975, mas a partir de 1976 viu os números caírem, não reflete a operacionalização do Projeto Georgia, visto que a venda dos automóveis no Brasil a partir de 1974 refletia o interesse praticamente único, em economia. Economia essa que nem o brasileiro sabia que existia, pois não havia preocupação com ela, visto que o preço do combustível nunca tinha variado tanto como durante a crise do petróleo.
Em 1970 o litro da gasolina custa 0,44 e em 1979 custava 9,60.
Assista como isso se dava na prática nas revendas:
O vendedor mostrou todos os itens de luxo que o carro possuía e toda sua qualidade, mas a única coisa que o comprador queria saber era quanto ele fazia por litro.
Depois o vendedor conta que uma mulher foi comprar um carro pensando apenas em economia. Ela escolheu um onde ela nem entrava direito. Ela não cabia, mas estava feliz porque somente a economia importava.
A Ford fez toda a lição de casa com o Maverick. Fez pesquisas de mercado, adaptou o carro ao Brasil e na hora do vamos ver, acontece um evento totalmente externo que prejudicou não só o Maverick, mas a indústria automobilística mundial. Foi isso que acabou com a era dos Muscle car também, ou seja, foi o fim de uma geração completa, independentemente de carro ou marca.
É como olhar a previsão do tempo de manhã e constatar que fará sol. Você deixa o guarda chuva em casa e vai trabalhar. Então no meio do dia, o céu escurece e desaba em forte tempestade. Como você pode ser o culpado por estar desprotegido?
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| Manchete 23.12.1978 |
É por isso que até os últimos dias, a Ford destacava as qualidades de construção do Maverick, deixando claro que, não comprá-lo, não tinha a ver com qualidade. O Maverick ainda hoje é um carro muito bom. as pessoas tinham outros interesses na época...
Nós que passamos pela greve dos caminhoneiros em 2018, onde o preço da gasolina passou dos 10 reais, e que também passamos pela pandemia de 2020, onde nem trabalhar direito foi possível, lembramos facilmente que nenhum carro nos interessava, aliás, a última coisa que nos vinha à cabeça, era usar um carro.
Se tudo for analisado dentro do seu contexto, a análise fica correta.
Concluindo o assunto, vimos que o que trouxe o Maverick ao Brasil, era maior que o próprio carro. A Ford não podia parar tudo para focar apenas no carro, assim como também não poderia abandoná-lo (como não abandonou) para cuidar dos outros interesses. O dinheiro da Ford vinha de várias fontes, não apenas dos carros. Quando o interesse do mercado consumidor mudou, essas outras fontes de renda ajudaram a Ford se manter mesmo com queda geral nas vendas de automóveis no país.
Pra ter uma ideia, a Ford tinha 3 linhas completas de veículos para cuidar, enquanto outra montadora só tinha uma linha e meia...
Já conhecíamos a história do Maverick e agora demos destaque para o que acontecia ao seu redor. Com esse contexto aumentado, deve-se parar de vez com comentários do tipo "deveria ter feito isso", "era melhor ter feito aquilo"... O estudo da história resume-se em analisar FATOS OCORRIDOS e não no que nós ACHAMOS QUE PODERIA ACONTECER.
É bem frustrante ouvir opinião de quem não conhece o assunto que está falando, distorcendo-o de todas as formas possíveis.
Não seja a pessoa que só "LÊ AS FIGURA", uma imagem não vale mais do que mil palavras. Conheça o contexto.
Obrigado.
MAVERICK NA HISTÓRIA
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